• À Beira de um Abraço

    Existe um espaço entre dois corpos que parece invisível, mas pesa como o mundo.
    É o espaço onde o abraço não acontece.
    Onde os olhos se encontram e dizem tudo, mas nenhuma palavra se atreve a nascer.
    É ali que eu vivo, entre o quase e o nunca.

    No começo, ele me abraçava.
    Mesmo com as faíscas, com os desencontros, havia aquele gesto que selava tudo, como quem dissesse: “eu ainda estou aqui”.
    Mas aos poucos, o abraço se desfez.
    E em seu lugar ficou um olhar, quente, hesitante, cheio de palavras não ditas.

    Agora, ele chega e vai embora como quem deixa um pedaço de si.
    Fica parado na porta, o corpo pedindo algo que a boca não diz.
    Manda um beijo de longe, mas os olhos…
    Ah, os olhos gritam.
    E eu, parada do outro lado da sala,
    morrendo de vontade de correr até ele,
    fico imóvel, travada pelo medo de que, se eu der um passo, ele dê dois pra trás.

    Nos dias em que estamos juntos, parece que o tempo se curva em silêncio pra nos ver de perto.
    Não desgrudamos, os olhos não se soltam, o sorriso dele é outro, eu sei.
    É um sorriso que só ele e eu conhecemos,
    um código mudo de cumplicidade,
    como se o mundo inteiro desaparecesse e só restasse o universo que construímos em cada conversa, em cada toque evitado.

    Ele me deixa entrar nos detalhes da vida dele, me mostra planos, abre janelas do que vive…
    E eu, feita de esperança e receios, me pergunto: “Será que ele sente?”
    Porque tudo nele diz sim, menos os gestos.
    Tudo nos nossos momentos grita amor, menos a realidade.

    Talvez ele me queira.
    Talvez até precise de mim mais do que consegue admitir.
    Mas ele tem medo.
    Medo da minha intensidade,
    medo do que posso provocar nele,
    medo do que ele teria que enfrentar pra me deixar ficar.

    E aqui estou eu, vivendo à beira de um abraço.
    Entre o impulso de me jogar nos braços dele e o pavor de não ser recebida.
    Entre o amor que pulsa e o silêncio que corrói.

    Mas se ele soubesse…
    Se ele soubesse o quanto eu caberia naquele abraço,
    o quanto eu faria morada naquele sorriso,
    o quanto eu lutaria pra estar ao lado dele, mesmo nos dias escuros…
    Talvez ele não tivesse tanto medo assim.

    Mas talvez não saber seja a forma que ele encontrou de não sentir.
    E eu, de tanto esperar, estou aprendendo a guardar meus braços
    e meu amor,
    pra quem não fuja quando eu me aproximar.

  • Colcha de Retalhos

    Eu me sinto assim: uma colcha de retalhos.
    Feita de pedaços de mim que fui dando ao longo do caminho.
    Tecida às pressas por mãos que nunca me souberam inteira,
    remendada por sentimentos que nunca voltaram completos.

    Cada ponto, uma entrega.
    Cada linha, uma esperança.
    Fui costurando afetos, unindo lembranças, prendendo saudades,
    achando que, juntos, talvez formassem algo bonito. Algo inteiro.
    Mas o espelho só devolve a imagem de uma mulher cheia de recortes:
    um pouco daqui, outro pouco dali… sempre dando mais do que podia.

    Sou feita dos retalhos de todas as vezes que não me escolheram.
    Do beijo que ficou no ar.
    Do abraço que eu desejei, mas contive.
    Da ligação que não veio, do “bom dia” frio, do “você é incrível” dito como quem não percebe o eco que isso deixa em alguém que só queria ser vista por inteiro.

    Não é que eu não tenha amor.
    Pelo contrário, eu transbordo.
    Mas talvez o mundo só saiba pegar um gole e sair correndo,
    com medo da intensidade que eu carrego no peito.

    Às vezes penso se alguém um dia vai me olhar como eu olho o mundo.
    Sem pressa, sem medo, sem usar luvas.
    Alguém que entenda que, por trás dos pedaços, existe uma mulher inteira querendo apenas ser tocada com verdade.

    Mas por enquanto, sigo aqui.
    Costurando dias bons sobre dias tristes,
    tentando transformar meus retalhos em coberta.
    Mesmo que seja só pra me proteger do frio de ser tanta…
    e, ainda assim, não ser suficiente.

  • Se você soubesse…

    Se você soubesse o quanto eu desejei estar ali, naquela sala, naquele sofá, naquele instante onde tudo poderia parar.
    Se você soubesse a força que fiz pra não te ligar, pra não aparecer, pra não implorar por mais um abraço, por mais um beijo, por mais um momento que talvez nunca tivesse real valor pra você, mas que pra mim significaria tudo.

    Você disse vida que segue…
    E sim, a vida segue.
    Mas não me esperou.
    Porque eu fiquei aqui, parada, te olhando partir todos os dias. Mesmo quando você ficava, você ia. Mesmo ao meu lado, você já estava longe.
    E eu tentando te seguir com esse barquinho furado, usando as mãos pra tirar a água, sangrando os dedos pra não afundar, só pra estar perto.

    Eu me perdi tentando te alcançar.
    Me perdi nas noites em que nos ligavamos e você bêbado, e eu atendia como quem atende a esperança.
    Me perdi nos sorrisos que você me dava, e que pareciam promessas.
    Me perdi nos abraços que eu sonhava, nos toques que vinham e iam, nas palavras bonitas que nunca viraram realidade.
    Me perdi naquele pedaço de pano, no cheiro que não era meu, mas que eu queria chamar de casa.

    E agora eu estou aqui.
    Com o coração estilhaçado e o amor inteiro.
    Com as mãos vazias e a alma exausta.

    Se você soubesse…
    Que tudo que eu queria era ser aquela que você escolhe.
    Não por carência.
    Não por impulso.
    Mas porque, no fundo, eu só queria ser seu lar.
    E você parecia casa.

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