• O sorriso na tela

    Peguei a estrada com o coração apertado e a cabeça cheia.
    Mas ele estava lá.
    Na tela do celular.
    Naquela foto que guardei como segredo
    Meu talismã em dias nublados.

    O mesmo sorriso de sempre.
    O mesmo olhar que, mesmo em pixels, parece me atravessar e me ver.
    Não como colega, não como sombra.
    Mas como alguém que ele enxerga, ou pelo menos é assim que eu gosto de acreditar.

    Enquanto dirigia, meus olhos escapavam pra tela.
    Breves olhares.
    Só pra ter certeza de que ainda estava lá.
    De que ainda existia algo entre o que eu sinto e o que o mundo não vê.

    Aquela foto me aqueceu por dentro.
    Como se ele estivesse ali, sentado ao meu lado, dizendo tudo o que nunca disse.
    Como se aquele sorriso fosse só meu, mesmo que não seja.

    Foi só uma foto.
    Mas naquele instante, foi abrigo.

  • Desabafo de quem sente demais

    Estou aqui sentada, no mesmo lugar de sempre, cercada pelo silêncio que grita, com o peito rasgado e os olhos marejando pela milésima vez.
    Na mão, aquele maldito pedaço de pano que carrega o cheiro dele. No celular, o sorriso que me desmonta e que me lembra tudo que eu queria esquecer.

    Hoje tá difícil.
    Hoje parece que não vai dar.
    Eu tenho que funcionar, sorrir, fingir que está tudo bem… mas por dentro eu tô gritando.
    Gritando por um abraço, por um olhar de verdade, por um afeto que não me machuque.

    E o pior é que eu tô com raiva de mim.
    De continuar sentindo.
    De continuar querendo.
    De continuar esperando por alguém que nunca me quis como eu quis.
    Por alguém que olha pra mim, mas não me vê.

    Eu me odeio por amar desse jeito.
    Por não conseguir cortar esse laço que só existe de um lado.
    Por continuar alimentando uma chama sozinha, enquanto ele nem percebe que eu tô me queimando inteira pra manter aceso o que já devia ter virado cinza.

    Mas eu preciso soltar.
    Preciso colocar pra fora antes que isso me afogue de vez.
    Porque eu tô cansada de chorar escondida, de sufocar minha dor em silêncio, de fingir que sou forte quando tudo em mim só quer cair.

    Eu só queria paz.
    Só queria parar de sentir como se o amor tivesse me escolhido pra ser castigo.
    Só queria me libertar disso tudo.
    E voltar a ser eu. Inteira. Viva. Leve.

    Mas hoje… hoje ainda dói.
    E tá tudo bem doer.
    Eu só precisava dizer.

  • As Metades que Me Habitam

    Tem dias que eu acordo com a sensação de que falta alguma coisa.
    Não um objeto, nem um detalhe…
    Falta um pedaço meu.
    Como se eu tivesse vindo ao mundo assim, incompleta, com espaços em branco que ninguém consegue preencher.

    E talvez seja esse o meu karma: viver de metades.
    Meias conversas. Meios toques. Meios amores.
    Como se a vida me entregasse tudo pela metade e mesmo assim esperasse que eu fosse inteira pra retribuir.

    Quando tem parceria, falta presença.
    Quando tem presença, falta toque.
    Quando tem toque, falta sentimento.
    E quando, por um milagre raro, vem tudo isso junto…
    a pessoa vai embora.

    E eu fico.
    Sempre fico.
    Com os braços abertos demais, com o coração exposto demais, esperando demais.
    Sempre me moldando aos espaços dos outros, tentando ser o que eles precisam, esquecendo o que eu sou.
    Amando tanto que esqueço de pedir amor de volta.

    No fim, sou sempre eu por mim.
    Eu me consolando.
    Eu me reerguendo.
    Eu fingindo que está tudo bem enquanto abraço memórias, cheiros, como se assim eu preenchesse os buracos.

    Talvez o problema seja que eu sinto demais num mundo que sente de menos.
    Ou talvez seja só o vazio que vive em mim pedindo socorro, pedindo que alguém, qualquer alguém, me veja por inteiro.
    Não só pelas metades que ofereço.
    Não só pela utilidade, pela parceria, pelo “você é incrível, mas…”.

    Cansei dos “mas”.
    Cansei de ser metade.
    Cansei de sempre ser quase.
    De sempre me sentir uma presença dispensável, mesmo quando sou a única que fica.

    E se tudo que me resta for amar sozinha, então que seja um amor que volte pra mim.
    Que cure a menina exausta que mora aqui dentro.
    Que acalme o peito que chora em silêncio.
    Que aceite: não sou metade de ninguém.
    Mesmo em pedaços, ainda assim sou inteira.
    Mesmo em silêncio, ainda assim sou profunda.

    E um dia, talvez, alguém enxergue isso.
    Mas até lá…
    eu me abraço com força.
    Porque ninguém mais sabe o que é carregar tudo isso por dentro e ainda assim continuar sorrindo.

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