• CARTA À DESPEDIDA QUE NÃO ACONTECEU

    Meu menino,

    Eu escrevo porque não pude falar.
    Escrevo porque você me silenciou antes que eu pudesse encostar o coração no teu pela última vez.
    Escrevo porque não me deixaram ficar, e você nem tentou evitar a queda.

    Hoje eu me despeço de um jeito que você nunca me ofereceu:
    com verdade.

    Você sempre foi esse enigma que eu tentava decifrar com as mãos trêmulas,
    o rei inquieto do tabuleiro que nunca soube se jogava comigo ou contra mim.
    E eu, a torre que te rodeava em silêncio,
    protegendo tudo que você escondia do mundo e até de si.
    Eu sempre te vi, meu menino.
    Mesmo quando você se escondia atrás da voz dura,
    atrás da garrafa,
    atrás da fuga,
    atrás da máscara que sempre cai tarde demais.

    Eu te amei onde ninguém mais te alcançava.
    Nos teus abismos, nos teus vícios, nos teus fantasmas.
    Nos teus quase beijos, nos teus quase toques,
    nos quase amores que você começava e destruía antes mesmo de permitir que existissem.

    Você me ensinou o que é esperar algo que nunca chega.
    Me mostrou como alguém pode aquecer e cortar na mesma medida.
    Como o afeto pode ser um abrigo e ao mesmo tempo um campo minado.

    E hoje você me bloqueou,
    não só na tela,
    mas no coração.
    E esse foi o golpe que você nunca precisou dizer em voz alta.
    A porta que nunca foi minha se fechou como se sempre tivesse estado entreaberta apenas por acidente.
    E o eco dela batendo nas minhas costas é o som mais frio que eu já ouvi.

    Eu tentei, meu menino.
    Você sabe.
    Eu tentei por nós dois,
    por mim,
    por você.
    Por tudo que poderia ter sido e nunca foi,
    por tudo que quase aconteceu e que você destruiu antes de tocar.

    Eu fui até o seu mundo, até o nosso lugar.
    Entreguei aquilo que restava de nós.
    E você, tão previsível na dor e tão imprevisível no amor,
    jogou nossas peças no lixo como se pudesse se livrar de mim assim, num gesto seco, num estalo, num espasmo de fúria.

    Mas eu não fui o lixo.
    Eu fui a torre.
    E você sabe disso, por isso doeu tanto te ver me descartar.

    É irônico, não é?
    Você fugiu de mim, mas guardou meus objetos por meses.
    Guardou meus gestos, minhas noites, meu perfume nos cantos da tua memória que você tenta negar.
    Mas agora queimou tudo antes que pudesse admitir o quanto sentiu.

    E ainda assim, apesar de tudo,
    aqui estou eu:
    te deixando ir.
    Não por falta de amor,
    mas porque você trancou as portas que eu jamais tentei abrir à força.

    Se eu pudesse pedir uma última coisa, pediria só um abraço,
    aquele nosso abraço longo que era quase uma casa.
    Mas nem isso você me deu.
    Então eu fico com a ausência,
    com o cheiro da estrada onde te vi passar sem saber que eu era teu adeus silencioso,
    com o nó na garganta,
    com o amor que agora só pode existir dentro de mim.

    Meu menino,
    eu me despeço porque continuo te amando.
    E é justamente por isso que preciso partir.
    Eu mereço ser amada sem me ajoelhar em cacos.
    E você merece encontrar paz, mesmo que longe de mim.

    Se algum dia, numa madrugada qualquer,
    você sentir a falta do meu riso, da minha voz, da minha presença que te acolhia quando o mundo te fazia sangrar,
    eu estarei aqui, inteira na memória do que fomos,
    mas longe o suficiente para não morrer outra vez.

    Cuida de você, meu menino.
    Na parte mais profunda do meu peito,
    você sempre vai morar.

    A torre que um dia te protegeu.

  • NASCIDA NO INFERNO

    Eu não nasci, eu escapei.
    Eu fui a vida que tentaram arrancar do ventre antes mesmo de ter forma.
    Fui a mão que empurrou comprimidos, as agulhas improvisadas, os chás tóxicos, as rezas desesperadas para que eu simplesmente não acontecesse.
    Cresci sabendo que minha existência veio de uma luta contra a própria vontade da minha mãe de me expulsar do mundo antes de entrar nele.
    Ela nunca escondeu.
    Pelo contrário, repetia como maldição:

    “Não era pra você ter nascido. Eu devia ter conseguido.”

    E essas palavras acompanharam cada momento, cada respiração.

    Minha chegada ao mundo não trouxe luz pra ninguém. Trouxe mais caos pra uma casa que já ardia em fogo.
    Meu pai era um vendaval violento, um punho sempre pronto, uma sombra que engolia todo ar quando entrava em casa. Lembro do som seco das pancadas, o barulho do corpo da minha mãe acertando móveis, a respiração dela misturada com soluços bêbados.
    Ela bebia como quem tenta cavar um buraco pra desaparecer.
    Sempre com a garrafa na mão, sempre com o copo cheio, sempre com os olhos vazios.

    Entre um gole e outro, ela desaparecia.
    Às vezes fisicamente, sumia por dias.
    Às vezes emocionalmente, virava um corpo presente e uma alma ausente.

    E eu?
    Eu era a criança que ninguém protegia.

    A mesa nunca foi lugar de refeição, era trincheira, era onde meu pai virava tudo, pratos voando, talheres batendo no chão, comida espalhada enquanto ele gritava.
    Sempre gritos, sempre a violência como língua oficial da casa.
    Meus irmãos choravam, choravam muito, talvez porque sabiam que ninguém vinha buscá-los, que ninguém ia dizer “calma, vai passar”.
    E eu, mais velha, mais cansada do que qualquer criança deveria ser, recolhia cacos, acalmava vozes trêmulas, inventava segurança onde nunca houve.

    Eu me lembro do cheiro.
    O pior de tudo era o cheiro.

    O crack queimando.
    A fumaça se espalhando pelo corredor.
    A madrugada inteira impregnada com o odor químico que anunciava que a noite seria longa, tensa, imprevisível.
    Eu aprendi cedo a reconhecer quando era melhor me esconder e quando era melhor ficar acordada cuidando para que ninguém morresse ali dentro.

    Quantas vezes acordei sem nenhum adulto em casa.
    Só eu, meus irmãos e o barulho da cidade dormindo lá fora enquanto o caos morava com a gente.
    Eu era criança, mas nunca fui tratada como uma, se alguém tinha que ser adulto ali, esse alguém era eu.
    Uma menina segurando a casa nos braços, tentando proteger tudo enquanto desmoronava por dentro.

    A infância que dizem ser doce, inocente, cheia de descobertas… não foi minha.
    Minha infância foi eu limpando vômito, escondendo marcas roxas, separando brigas, tirando meus irmãos da frente das tempestades.
    Minha infância foi medo, foi sobrevivência, foi olhar pro teto e desejar desaparecer.

    E como desejar se transforma em ação.

    Quando finalmente percebi que minha vida não era vida, que eu era o erro que insistia em existir, as tentativas começaram. Uma, duas, três… não foram impulsos.
    Foram pedidos de descanso.
    Eu queria parar.
    Queria silêncio.
    Queria nunca mais sentir o peso de ter sido uma vida que ninguém quis.

    Mas sobrevivi.
    Talvez por ironia.
    Talvez por teimosia.
    Ou talvez porque até o inferno sabe reconhecer um dos seus.

    Eu fui moldada no fogo, nas pancadas, no álcool derramado, no vidro quebrado, nas noites de crack, nos insultos que formaram minha pele.
    Fui feita na escuridão.
    Fui feita no abandono.

    Sim, eu nasci no inferno.
    E carrego até hoje o cheiro da fumaça no peito.

  • RELÓGIOS DE DALÍ

    Às vezes eu penso que nós dois existimos numa dimensão própria, dessas que ninguém explica e poucos suportam.
    Um lugar onde o tempo não corre em linha reta, mas se derrete devagar… o tempo distorcido como nos relógios de Dalí, escorrendo pelas bordas dos dias, escancarando a falta que você me faz.

    Há momentos em que juro sentir você ainda aqui, não no corpo, não na voz, não na resposta que nunca chega, mas naquela fresta invisível onde duas almas que se tocaram continuam estremecendo, mesmo separadas.
    É um território doloroso… mas também é o único onde ainda te encontro.

    Eu penso em nós e o mundo perde sua forma. As horas, que deveriam me afastar de você, na verdade me empurram de volta para o mesmo lugar: aquele onde eu te espero, mesmo tentando não esperar.
    Aquele onde eu te busco, mesmo prometendo não buscar mais.

    E é estranho… porque tudo em mim sabe que você foi embora, mas tudo em mim também insiste que sua ausência é só mais uma dessas deformações do tempo, essas que fazem os ponteiros se curvarem, se desmancharem, ficarem moles como cera quente, até que um dia voltem a se recompor.

    Talvez seja loucura. Talvez seja amor. Talvez seja só a memória do que fomos, latejando como um eco que não quer desaparecer.

    Mas eu sigo aqui, neste tempo torto, segurando as lembranças com as duas mãos, tentando entender se você foi ou se apenas está do outro lado da dobra, preso no mesmo relógio derretido que me prende.
    E no fundo, ainda que doa, ainda que me deixe sem ar, há uma parte de mim que acredita que um dia você volta a existir no meu tempo.

    Porque o que vivemos não foi comum.
    Nunca foi.

    E coisas assim… não acabam.
    Apenas se distorcem, como os relógios de Dalí.

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