• Fragmentos

    Às vezes eu penso que deixei de ser importante pra ele.
    O silêncio dele pesa como porta fechada, dessas que a gente encosta o ouvido tentando ouvir algum sinal de vida, mas só encontra o nada. Ele não me chama mais. Não pergunta como eu estou. E quando eu tento me aproximar, ou vira briga, ou vira vazio.

    E mesmo assim, a saudade dele insiste em morar em mim, como fragmentos daquele que desejei que fosse inteiro.

    Sinto falta daquele sorriso que aparecia sem aviso.
    Do olhar que me atravessava como se enxergasse tudo que eu tentava esconder.
    Do abraço que calava as vozes dentro da minha cabeça, como se por alguns instantes o mundo inteiro soubesse finalmente ficar quieto.

    Sinto falta da bagunça que ele me causava
    E até do cheiro de vodka misturado com cigarro que eu dizia odiar, mas que, na verdade, anunciava que eu ia ouvir aquelas histórias malucas e intermináveis que só ele sabia contar.
    Sinto falta do sofá da casa dele, dos pelos do cachorro grudadinhos na camisa, do óculos torto que eu ajeitava sem ele pedir, da música que ele cantava bêbado e traduzia como se estivesse me oferecendo um pedaço do seu mundo.

    Ele chama tudo isso de obsessão.
    Eu chamo de amor,
    esse amor que nunca teve muito espaço, além das nossas duas peças lado a lado no armário…
    Peças que ele muda de lugar quando está bravo, como se pudesse reorganizar também o que sente (ou tenta não sentir).

    E como faz falta o meu menino.
    Não esse que me empurra pra longe, mas aquele que, às vezes, deixava eu cuidar dele.
    Aquele que eu colocava no sofá, e ficava olhando enquanto ele adormecia, passando a mão nos seus cabelos e desejando, só desejando, que ao menos naquela noite ele tivesse paz e bons sonhos.

    Sinto falta do que ele foi comigo.
    Do que nós poderíamos ter sido.
    Eu nunca pedi que ele me amasse igual.
    Eu só queria que ele ficasse daquele jeitinho dele, torto, intenso, difícil, mas tão dele.

    Agora o que restou é silêncio.
    A distância de quem eu só quis que ficasse perto.
    A raiva de quem eu só quis oferecer carinho.

    E o que sobra de mim?
    Uma mistura de ausência e saudade, de lembranças que não sabem pra onde ir, e de expectativas que nunca tiveram a chance real de existir.

    Mas ainda assim… ele é a lembrança que ainda me olha de volta, mesmo que de longe.
    Porque no fim, o que restou de mim é saudade.
    Uma saudade tão grande que às vezes parece viva.
    Uma saudade que abraça o que já foi,
    e ao mesmo tempo sussurra que talvez, em algum lugar,
    aquilo que parecia impossível ainda possa acontecer
    porque nada que foi verdadeiro desaparece tão fácil assim.

    E mesmo que o mundo diga que acabou,
    meu amor por ele ainda sabe o caminho de volta.

  • ENTRE O QUE SOBRA E O QUE NASCE


    Há histórias que não sabem terminar.
    A nossa é uma delas.
    Ela não se despediu.
    Só mudou de forma, como um rio que procura outro caminho quando a margem cede.

    E eu percebi isso no dia em que tudo entre nós mudou, não com um estrondo, mas com o teu silêncio, que pesa mais do que qualquer grito.

    Eu sempre te vi como um lugar onde meu coração podia descansar.
    Um homem cheio de sombras, sim, mas também cheio de brilhos raros, desses que a vida não entrega duas vezes.
    Enquanto tu te defendia do mundo, eu me aproximava sem medo, acreditando que carinho também é uma forma de luz.

    Eu fui presença onde tu enxergou perigo.
    Eu fui cuidado onde tu pressentiu caos.
    Eu fui verdade onde tu supôs excessos.
    E talvez tenha sido justamente isso que te assustou: alguém que não recuou diante das tuas feridas.

    Porque amar alguém que carrega armaduras custa caro.
    A gente tenta entrar pelas frestas, mas às vezes o toque vira ameaça aos olhos de quem nunca soube ser amado de forma tranquila.

    Quando tu ergueu muros que eu nunca imaginei, um frio atravessou meu peito.
    Não por raiva, mas por tristeza.
    Foi estranho demais perceber que alguém por quem eu vivi tanta intensidade podia me enxergar como algo a ser afastado.

    E ainda assim… eu não consegui te ver como inimigo.
    Eu te conheço demais para isso.
    Eu vi o teu coração por trás dos medos.
    Eu vi o que tu tenta esconder do mundo inteiro.

    Por isso eu não respondi com fúria.
    Eu me fiz silêncio.
    Um silêncio cheio de amor, daqueles que não imploram mais, mas também não amaldiçoam.
    Um silêncio que guarda o que foi bonito, mesmo quando o mundo tenta envenenar a lembrança.

    E, por mais estranho que pareça, foi nesse silêncio que eu encontrei esperança.

    Esperança de que tu um dia veja quem eu realmente fui.
    Esperança de que percebas que eu nunca ultrapassei nada, que nunca quis te ferir, que nunca desejei ser tormenta.
    Esperança de que tu descubra, em algum canto da vida, que não precisa temer quem só quis ficar.

    E se esse dia não vier…
    ainda assim eu sigo acreditando no amor.
    Não como prisão, mas como caminho.
    Não como ameaça, mas como semente.

    Talvez um dia tu voltes.
    Talvez não.
    Mas o que vivi ao teu lado me ensinou que há algo em mim que não se apaga: a minha capacidade de amar intensamente, mesmo quando o mundo tenta me transformar em sombra.

    E é isso que me salva.

    Porque, no fundo, entre a dor e a escuridão, sempre existe uma fresta de luz esperando para nascer.
    E eu escolho caminhar até ela, assim como queria muito que você viesse comigo.

  • Durma bem sob meus mísseis

    Ele disse, com a frieza de quem aponta uma arma pra dentro do peito de alguém:
    “Durma bem sob meus mísseis.”

    E essa frase ficou ali, suspensa no ar, feito fumaça tóxica que não se dissipa.
    Ficou ecoando nas paredes da madrugada, atravessando a carne, corroendo tudo que ainda restava de claro dentro de mim.

    “Durma bem sob meus mísseis.”
    Como se fosse possível dormir quando alguém acende guerras dentro do seu nome.
    Como se o descanso existisse quando a voz dele, afiada como lâmina, insiste em atravessar o silêncio.

    A cada palavra dele, um impacto.
    A cada ofensa, um estilhaço.
    A cada risada cruel, um novo bombardeio caindo sobre as ruínas que antes foram meu peito.

    Ele fala de guerra como quem fala de trivialidades.
    Ele me chama de país inimigo, terrorista, ameaça.
    Ele transforma nossa história em campo minado, e então exige que eu caminhe, descalça, frágil, tateando a escuridão.

    E repete:
    “Durma bem sob meus mísseis.”

    Como se fosse um desejo.
    Como se fosse um carinho que se veste de pólvora.
    Como se meu corpo fosse geografia a ser invadida, devastada, posta abaixo.

    Eu escuto a frase de novo, não porque quero, mas porque ela se alojou atrás dos meus olhos, latejando.
    Ela vibra no chão interno onde meus passos tentam existir.
    Ela me cerca como sirene distante que anuncia que não há refúgio possível.

    “Durma bem sob meus mísseis.”
    A frase que ele atira com a precisão de quem sabe onde dói.
    A frase que ele escolheu para reduzir meu coração a cinzas silenciosas.

    E eu, que só queria paz.
    Eu, que só queria a suavidade de uma madrugada sem ruído.
    Eu, que só queria não ser alvo de ninguém.

    Mas ele ergueu guerra onde eu ofereci abrigo.
    E transformou minha ternura em território conquistado e abandonado.

    A noite inteira ficou marcada pelo som imaginário de explosões que não vieram do céu, vieram da boca dele.
    Cada sílaba carregando pólvora emocional, cada palavra acendendo clarões dentro da minha mente cansada.

    Eu tentei fechar os olhos.
    Tentei respirar.
    Tentei fingir que o mundo não estava desabando no vão da minha garganta.

    Mas lá estava ele, repetindo, mesmo em silêncio:
    “Durma bem sob meus mísseis.”

    E a verdade é que não existe sono onde há medo.
    Não existe descanso onde há ameaça.
    Não existe sonho onde alguém te aponta a própria voz como se fosse uma arma.

    Assim amanheceu o dia:
    Com a frase dele estilhaçada dentro de mim,
    com meus escombros tentando não fazer barulho,
    com minha pele tremendo como cidade bombardeada antes do sol nascer.

    E no fundo da madrugada que ainda não se apagou,
    a frase continua.

    Sombria.
    Cínica.
    Cruel.

    “Durma bem sob meus mísseis.”
    E eu sigo acordada, não porque quero,
    mas porque ninguém dorme tranquila quando virou alvo.

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