• Como pedra no peito

    Existe um tipo de tristeza que não desce para os olhos.
    Ela não chora, não escorre, não molha o travesseiro.
    Ela mora no peito, pesada como se alguém tivesse esquecido uma pedra dentro de você.

    É uma tristeza silenciosa, que não faz escândalo, mas ocupa espaço.
    Você tenta inspirar fundo, mas o ar empaca na entrada, hesita, tropeça no nó que se formou entre o esterno e a alma.
    E então vem a sensação estranha de que respirar virou um esforço voluntário, quase uma luta.

    Hoje eu acordei com essa dor.
    Não aquela que corta, mas a que pesa.
    A que se instala como quem arrasta uma mala grande para dentro da sala e diz
    “Estou aqui. Me aguente.”

    E eu aguentei.

    O peito apertado carrega não só tristeza
    carrega palavras que nunca deveriam ter sido ditas, conversas que viraram guerras, expectativas que se partiram como louça fina no chão.


    Carrega a memória do carinho que existia, e a incredulidade diante do que virou.
    Carrega um amor que ainda pulsa, mesmo ferido, mesmo cansado, mesmo sabendo que não deveria mais.

    É estranho perceber que alguém que um dia me fez sorrir com o som da voz agora é também quem faz meu peito querer desabar.
    Que o mesmo nome que já foi abrigo hoje é tempestade.
    Que a saudade ainda existe, mas já não sabe muito bem de quem.

    No fundo, o que dói não é o fim
    é a ausência do cuidado.
    É descobrir que eu segurava o mundo com as mãos abertas, enquanto o outro só sabia lançar pedras.
    É sentir que lutei por dois, quando mal conseguia lutar por mim.

    Essa tristeza que fica no peito tem sabor de decepção.
    Daquelas que não gritam, mas desgastam.
    Daquelas que se alojam nos ossos.
    Daquelas que fazem a gente deitar e perguntar baixinho:
    “Por que não fui cuidada? Por que não fui escolhida?”

    E a resposta nunca vem.

    Vem só o silêncio.
    E, às vezes, o silêncio pesa mais que qualquer palavra.

    Mas, mesmo assim, eu respiro.
    Devagar.
    Com esforço.
    Com delicadeza.
    Como quem aprende novamente a existir sem se culpar por sentir.

    Porque, no fim, tristeza nenhuma é grande o suficiente para ser maior do que eu.

  • Ruinas em mim

    Há dores que não gritam, apenas se instalam.
    Entram devagar, como quem pede licença,
    e quando percebemos
    já arrastaram móveis, já trocaram as fechaduras,
    já moram dentro da gente.

    A minha se instalou no peito.
    É uma sombra silenciosa,
    daquelas que não precisam de noite para existir.
    Ela vive em mim em pleno dia,
    pendurada nas minhas costelas
    como um animal que não larga o osso.

    Hoje acordei com ela.
    Ou talvez tenha dormido com ela,
    já não sei onde termina um dia e começa o outro,
    quando a dor é o relógio que marca minhas horas.

    É um peso:
    um planeta morto,
    um coração ferido que lateja em surdina,
    como se cada lembrança batesse a porta por dentro
    pedindo para ser ouvida.

    Dói porque eu acreditei.
    Dói porque esperei.
    Dói porque coloquei mundos inteiros
    nas mãos de quem não soube sequer segurar
    o que eu era por dentro.

    Há amores que não abraçam,
    apenas consomem.
    São labaredas frias, queimam sem luz.
    São tempestades sem água, molham só por dentro.
    E a gente vai ficando assim,
    meio quebrada, meio oca,
    com um vazio que faz eco quando pensamos demais.

    Tudo em mim hoje é eco.
    Eco do que eu dei,
    do que eu queria,
    do que nunca recebi de volta.

    A saudade não é só dele
    é da versão de mim que existia antes dele.
    Aquela que acreditava,
    que esperava ser cuidada,
    que ainda tinha fôlego para recomeçar sem tremor.

    Agora, no silêncio deste quarto estrangeiro,
    percebo que o mundo não quebra a gente de uma vez.
    Ele lasca devagar,
    como a madeira que range antes de partir,
    como o peito que aperta antes de ruir.

    E mesmo assim,
    entre o resto de mim que ainda pulsa,
    algo sussurra baixinho:

    Vai passar.

    Não porque deixa de doer,
    mas porque uma hora a gente cansa de sangrar.

  • O que não se diz

    Ele disse que não sente nada.
    Disse com a calma de quem arranca um coração e observa o sangue cair sem se sujar.
    Falou que tudo era invenção da minha cabeça, como se o amor fosse delírio e não ferida aberta.
    Como se eu tivesse escolhido sangrar.

    Mas eu senti.
    E sentir foi o erro mais humano que cometi.
    Enquanto ele media palavras, eu me entregava inteira.
    Enquanto ele levantava muros, eu me despia de todas as defesas pra que ele visse quem eu era e ainda assim ele virou o rosto.

    Ele sempre quis o controle.
    Quis que eu fosse menos, pra ele ser mais.
    Quis me moldar, me silenciar, me ensinar a não sentir.
    Mas eu nunca aprendi.
    E talvez seja por isso que ele me chamou de louca, dramática, adolescente.
    Porque amar com verdade assusta quem só conhece o cálculo.

    Agora ele deve estar lá, se distraindo com alguém “que vale a pena”,
    tentando preencher o vazio com novidade, como quem tapa um buraco com fumaça.
    Mas o que eu dei, valor, não preço, não se repete.
    Nenhuma substituta compra o que nasceu da alma.

    E quando o eco da solidão bater forte entre os muros dele,
    talvez lembre de mim.
    Da mulher que ficou quando todos se cansaram.
    Da que o segurou mesmo quando ele empurrou.
    Mas vai ser tarde.

    Porque o amor, quando morre de tanto apanhar,
    vira cinza.
    E a cinza, não volta a ser fogo.

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