No sofá da sala, o corpo apaga
o que a mente insiste em não desligar.
Mais uma noite, mais alguns goles,
enquanto o pensamento vai se partindo em ecos,
surto manso que se alastra em silêncio.
Cada dia mais longe da lucidez,
cada dia mais perto de você.
Um misto de loucura e desejo,
uma vertigem que me prende,
me afoga e me embriaga no mesmo gole.
Te imagino aqui,
no espaço vazio entre o copo e meus dedos,
no calor que minha pele inventa
pra sentir a sua.
É febre e é falta,
é vício e é cura,
é o delírio doce
de querer mais do que posso ter,
e ter você mais do que deveria querer.
E quando fecho os olhos,
você vem inteiro,
como um sussurro que invade
meus pensamentos mais secretos.
Sinto o peso da sua mão imaginária
guiando meus instintos,
o calor da sua respiração
ardendo na curva do meu pescoço.
A distância se dissolve,
o mundo se apaga,
e é só você,
me olhando como quem sabe
o que fazer com todas as minhas quedas.
Meu corpo já não obedece à razão,
segue apenas o compasso da sua ausência,
essa melodia torta
que me embala entre a saudade e o desejo.
E mesmo sabendo
que talvez você nunca chegue,
eu continuo te esperando
em cada gole,
em cada noite,
em cada loucura que invento
pra não deixar você ir embora de mim.
Porque no fundo,
eu sei que não bebo pra esquecer…
bebo pra te encontrar.
No amargo do último gole,
é você que eu provo,
é a tua boca que eu sinto,
mesmo que nunca tenha sido minha de verdade.
E se um dia você vier,
nem que seja só por uma vez,
que venha inteiro,
cru,
sem máscaras,
pra que eu possa enfim enlouquecer
de um jeito que me salve e me destrua ao mesmo tempo.