• Onde o amor me expulsa

    Já fui tantas vezes expulsa daquela casa que perdi a conta.
    E, ainda assim, continuo voltando, talvez por teimosia, talvez por amor,
    talvez porque um pedaço de mim ficou preso em algum canto do teu sofá,
    onde o meu coração se derramou da última vez.

    Eu volto sempre achando que dessa vez vai ser diferente.
    Que teu olhar vai ser abrigo e não julgamento,
    que teu silêncio vai ser calma e não castigo.
    Mas o que encontro é sempre o mesmo roteiro: o riso que vem antes do gelo,
    a aproximação que termina em abismo, o toque que quase acontece, o beijo que morre no ar.

    No elevador, eu quis parar o tempo.
    Tão perto da tua pele, tão perto do que eu sempre quis.
    Era só um passo, um movimento, uma chance.
    Mas o desejo virou crime, e o afeto virou culpa.
    E eu fiquei ali, confusa entre o que senti e o que te fez se fechar.
    Não era invasão, era saudade.
    Era o amor tentando te alcançar antes que você se perdesse de mim de novo.

    Mas você se perdeu.
    E eu também.

    Você me mandou embora com palavras que rasgaram o peito,
    me reduziu ao erro, ao exagero, à mulher que “passou dos limites”.
    Mas o que eu passei foi da dor.
    Passei do limite de quem ama demais e não sabe como parar.

    E agora, enquanto caminho de volta, eu penso:
    por que eu volto sempre pra um lugar que me expulsa?
    Por que eu insisto em chamar de casa o lugar onde o amor me fere?

    Talvez porque, no fundo, eu ainda espere que um dia, quando eu bater,
    você não feche a porta.
    Que um dia o teu olhar me reconheça e não me condene.
    Que um dia eu volte, e seja bem-vinda.

    Mas até lá, sigo indo e voltando,
    tentando entender o que resta de mim
    toda vez que o amor me expulsa
    e, mesmo assim, eu ainda fico do lado de fora
    esperando você abrir.

  • O Mesmo Sofá de Sempre

    Fui.
    Nem pensei, nem pesei, nem medi. Só fui.
    Onze horas de silêncio dele e uma eternidade dentro de mim.
    A cabeça gritando, o coração apertado, o medo sussurrando os piores cenários
    e eu só conseguia imaginar o pior.
    Porque quando ele some, o mundo parece sumir junto.

    Cheguei lá.
    A mesma casa, o mesmo cheiro, o mesmo sofá.
    Ele estava ali, deitado, tranquilo.
    Tinha apenas dormido.
    E naquele instante, tudo o que eu queria dizer travou.
    Raiva, alívio, cansaço, tudo se misturou num nó no meio da garganta.
    Eu, que passei o dia inteiro tentando salvar ele de um abismo imaginário,
    encontrei um homem dormindo em paz.

    Quis gritar, quis chorar, quis rir.
    Mas só fiquei ali, olhando pra ele, tentando entender por que o meu coração insiste tanto.
    Por que eu sempre volto, mesmo depois de tudo.
    Por que ainda encontro beleza num gesto simples, num silêncio, num “tá tudo bem” dito com desdém.

    E no fundo, eu sei.
    Sei que não é só sobre ele.
    É sobre mim, sobre o quanto eu não sei partir,
    sobre o quanto eu ainda acredito que posso ser o abrigo dele.
    Mesmo que isso me custe a minha própria paz.

    E ali, no mesmo sofá de sempre, percebi que o problema não é ele não mudar.
    O problema é eu continuar voltando, achando que dessa vez vai ser diferente.

  • O Mesmo Sofá de Sempre (continuação…)

    Saí da casa dele com o coração pesado.
    A rua estava silenciosa, o vento frio da noite me acertava o rosto como quem tenta acordar alguém de um sonho ruim.
    Mas eu já estava desperta demais.
    Cada passo que eu dava parecia carregar o peso de tudo o que eu senti ali dentro, o medo, o alívio, a raiva, o amor.
    Tudo junto, embolado, sem começo e sem fim.

    Entrei no carro e fiquei um tempo parada, olhando pro nada.
    As mãos ainda tremiam.
    Na mente, o som da voz dele ecoava, aquele tom calmo, meio distante, como se nada tivesse acontecido, como se meu desespero fosse só um detalhe.
    E talvez pra ele fosse mesmo.
    Mas pra mim, foi o mundo desabando e voltando a se reconstruir em segundos.

    Naquele momento, percebi que amar alguém que vive entre o caos e o silêncio é como tentar abraçar fumaça, você se esforça, se entrega, e ainda assim acaba com as mãos vazias.
    E eu estava exausta.
    Exausta de correr atrás, de ser abrigo, de inventar motivos pra continuar acreditando que em algum lugar dentro dele ainda existe espaço pra mim.

    Mas o pior de tudo é que, mesmo sabendo de tudo isso, eu sei que se ele me ligar amanhã, eu vou atender.
    E se ele pedir pra eu ir, eu vou.
    Porque amar alguém assim é um tipo de vício, uma febre que a gente sabe que faz mal, mas ainda assim não consegue se curar.

    Cheguei em casa, sentei no sofá, o meu sofá e chorei em silêncio.
    Não por ele, mas por mim.
    Por tudo que eu insisto em sentir, por tudo que eu merecia e ainda não tive coragem de exigir.
    E ali, entre o som do meu próprio choro e o vazio da sala, eu fiz um pedido simples:
    Que um dia eu consiga voltar pra mim, com a mesma intensidade que sempre volto pra ele.

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